Economia de comunhão comemora vinte e cinco anos

CARLA COTIGNOLI

Entrevista feita pelo jornal Observatório Romano ao economista e professor Ricardo Meirelles Faria

 

    Eventos em todas as regiões do Brasil desde o fim de maio até o próximo outubro. Muitos eventos nos outros continentes. O Brasil é o berço desta iniciativa. Em outubro de 2015, período do censo anual das empresas de EdC, o projeto registrou 811 empresas aderentes ao mesmo, sendo 463 na Europa, 220 na América do Sul, 84 na África, 26 na América do Norte e 18 na Ásia. Essas empresas inspiram-se na EdC ao adotar uma governança centrada na fraternidade, partilhando a riqueza produzida. Damos a palavra a umas das testemunhas, o professor Ricardo Meirelles de Faria, doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas com cursos de pós-graduação na Universidade Luigi Bocconi, em Milão, na Itália, e na Georgetown University, em Washington-DC, nos Estados Unidos, e membro do Conselho de Empresários da Associação Nacional por uma Economia de Comunhão (Anpecom).

    Eu estava presente, naquele maio de 1991 quando Chiara Lubich numa sala repleta de gente nos chacoalhou a todos com uma proposta audaciosa, revolucionária e ao mesmo tempo simples e singela: fazer do nosso agir econômico nos mais diferentes níveis e âmbitos, um ato de comunhão. Mas questiono-me por que a proposta da Economia de Comunhão? Por que muitos de nós aderimos a este projeto?

    Porque em algum momento de nossas vidas fomos capturados pela ideia de que fazemos parte de uma grande família; uma família global e não podemos conceber a ideia de poder almoçar, e meu irmão não. A ideia de que posso me realizar como um pai de família, criando e educando meus filhos, e meu vizinho não seja capaz de fazê-lo. A ideia de que as disparidades sociais e econômicas podem ser modificadas e dependem também do nosso agir econômico, de um comprometimento pessoal. Qual é? Se não ajustarmos nossas ambições econômicas e consumistas, se não nos esforçarmos em ter um estilo sóbrio e austero, não surgirão os recursos econômicos para que este projeto floresça. Assim, sem esforço, sem renúncia, não há comunhão, não há Economia de Comunhão.

    Mas esta sobriedade, esta austeridade não é privação! É sim, passaporte para uma comunidade mais saudável, mais criativa, mais lúdica, mais viva, mais alegre, muito mais rica! Uma riqueza nova: de facetas que só a comunhão criada por esta sobriedade pode gerar.

    O projeto de Economia de Comunhão é um ser vivo, ainda nascente. Se quisermos acreditar que ele perdurará pelos próximos dois milênios, então, 25 anos representaria por volta do primeiro ano de vida. Como todo ser vivo, a Economia de Comunhão possui um DNA que atesta sua paternidade/maternidade: nasceu na comunidade dos Focolares, filha de Chiara Lubich, de suas amigas e das primeiras comunidades, e dentre suas principais características genéticas, gosto sempre de ressaltar aquela que mais me fascina: a hipótese «lubichiana», a boa nova cristã de que chegamos ao Paraíso através do outro, ou melhor ainda, o Paraíso é o outro; é o cara sentado ao meu lado. O paraíso terrestre nasce com e da comunhão com o outro, construído diariamente, com esforço, recomeços, olhar para frente. Sim, no meu entender, a força da Economia de Comunhão está neste gene.

    Também, como qualquer ser vivo, a Economia de Comunhão ao nascer passa a influenciar e ser influenciada pelo mundo. Não está mais circunscrita ao movimento dos Focolares.

Como todo pai, mãe e irmãos, não podemos deixá-la ser influenciada por falsos amigos... Mas como toda criança, adolescente e adulto terá seus percalços, seus pontos na testa, suas dores de barriga. Enfim, um ser vivo que bem nutrido pode dar muitas alegrias à sua grande família terrena.

    A comunhão cura neuroses, resolve grandes impasses, reduz doenças psicossociais; aumenta a confiança mútua, eleva o rendimento das pessoas, reduz a criminalidade, a corrupção e, deste modo, eleva o IDH das comunidades, das cidades. Enfim, gera resultados concretos!

    Mas então, pergunto-me como atuamos concretamente?

    Fazemos parte de uma grande rede de comunhão que inicia nas nossas comunidades locais, de alguma forma se agrega em regiões e países e, por fim, se interconecta em uma grande rede internacional onde são colocados em comum, por um lado, as necessidades, quer sejam materiais, de aconselhamentos, de consultoria técnica, quer de muitos outros tipos; por outro, de disponibilidades, de recursos doados, materiais, financeiros, de capacidades intelectuais, experiências de vida, dentre muitos outros.

    E, o que fazemos de concreto, ainda que de forma incipiente e modesta: fazemos um monte de coisas: a primeira e mais importante, dado que é a ação final do projeto, aquela com base na comunhão de recursos financeiros e materiais: ajudamos famílias ou pessoas individuais a superarem momentos de dificuldades financeiras. O projeto foi criado para isso.

    Doamos parte de nossos salários, nossas rendas para a formação deste fundo de comunhão e solidariedade. As empresas inseridas no projeto doam parte de seus lucros através de seus empresários. Criamos polos de empresas com o objetivo de visibilizar esta experiência, incubadoras de empresas que auxiliem jovens empreendedores a desenvolver seus projetos de empresas. Fazemos teses de conclusão de cursos, teses de mestrado, dissertações de doutorado, seminários, cursos, simpósios buscando construir o arcabouço teórico que respalda o projeto de Economia de Comunhão.

    Junto ao Movimento Político pela Unidade que é a outra face da mesma moeda, buscamos construir redes de contatos com políticos para que juntos possamos desenvolver políticas e criar leis que estejam em consonância com o projeto da Economia de Comunhão. Entre estes projetos, como economista, eu gostaria de ver a implementação de uma tributação mais progressiva no Brasil que taxe efetivamente mais quem ganha mais. E no ano da operação Lava Jato, caberia uma menção à corrupção. O que é a corrupção senão a traição ao pacto social, senão a busca do preenchimento de um vazio existencial e pessoal através do acúmulo de bens ilícitos?

    A experiência de uma comunidade que veja valor na partilha e não no egoísmo, na sobriedade e não na ostentação, na competição baseada na confiança mútua e não na competição desleal, na riqueza de talentos e expressões comunitárias e não na riqueza vazia e desmedida proposta por nosso atual modelo econômico-social, pode ser um importante antídoto para que a prática da corrupção seja extirpada pela raiz.

    Concluo, deixando a vocês a proposição de um filósofo por quem tenho grande estima, Karl Popper: «Viver é uma aventura. Um ser vivo tem de imaginar, tem de arriscar o que quer que seja novo, e arriscar tanto mais quanto mais alto quiser chegar».


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